O AQ e a Linguística, Simão Cortês

Vivemos num mundo especialmente dominado por preconceitos, noções sociais injustas e normativizações extremas do comportamento, das emoções e da intimidade humana. Desde pequenas que nos são impostas regras que delimitam o nosso comportamento, especialmente os nossos comportamentos sexuais e de género. Partindo do princípio de que estas coisas são, pelo menos maioritariamente, definidas a nível social, é importante que estes dogmas sejam desconstruídos, e que as raízes mais profundas do pensamento que levam à discriminação social, sexual e de género sejam abaladas. Mas como abalar os preconceitos que mais do que no nosso comportamento, se revelam na nossa forma de pensar, na nossa forma de falar o mundo? A importância do Acordo Queerográfico prende-se com isto. É um Acordo que pretende abanar os alicerces mais profundos do nosso pensamento linguístico, e da forma como a linguagem influencia o nosso pensamento. Se mesmo Pinker acredita que a linguagem pode ser uma janela para a natureza humana (não importa agora que tenhamos dúvidas quanto à existência tout court de uma “natureza humana”) porque não pode ser também uma janela que nos permite aceder ao nosso pensamento? Mais importante do que isso, a influir no nosso pensamento?

Sinto a necessidade de escrever um texto a justificar a minha adesão ao AQ especialmente por ser um linguista e um amante incondicional da linguagem, e por saber que a maioria das amantes incondicionais da linguagem provavelmente não compreenderão o porquê da importância deste texto e, mais do que tudo, da sua pertinência política e ideológica.

 A descoberta de que a língua é um mecanismo cognitivo com uma forte influência biológica (quer sejamos nativistas ou não) levou a que as linguistas nos últimos anos se interessassem mais pelos aspectos formais, cognitivos e lógicos da linguagem humana do que pela sua influência na cultura. Este interesse levou à crença de que a língua não tem uma ideologia política, crença que eu partilho. No entanto não nos podemos esquecer que o facto de uma entidade abstracta como o Português, o Inglês ou o Nahuátl não ter uma ideologia, não quer dizer que a sua utilização pragmática por parte dos falantes não a tenha. A língua pode ter cores políticas, por isso é que identificamos facilmente a ideologia de um falante que opta pela palavra “empreendedorismo” contra um falante que use a palavra “proletariado”.

Mas mais grave do que negar que a língua possa ter cores políticas de todo, é o facto de todas as linguistas se terem esquecido nos últimos anos, perdidas em diagramas em árvore e curvas melódicas, que mais do que transmitir o pensamento, a língua molda o pensamento. Basta olhar para exemplos de línguas que tenham um conjunto diferente de cores do que as línguas Indo-Europeias, ou para línguas que descrevam realidades “difíceis de traduzir”. Isto demonstra que mais do que ter uma ideologia, a língua pode ser uma construtora de ideologias. Nunca me ouvirão dizer que a língua, per se, é machista. No entanto acredito com toda a minha convicção que a língua contribui para que o machismo se propague. É claro que consigo imaginar uma sociedade que não seja patriarcal em que se use o masculino universal para plural. Consigo também dar exemplos de sociedades em que o género é altamente normativizado e em que a língua nem sequer tem o conceito do género gramatical, basta olhar para o caso da China e do Mandarim. No entanto, reconheço também que a abolição do masculino universal das formas plurais pode ser uma forma legítima de boicote a uma sociedade patriarcal, a um pensamento enformado por ideias machistas.

Um outro dogma que a maioria das linguistas partilha, e que me levou a assinar este Acordo, é o de que a língua é estudada na sua forma falada e espontânea e de que portanto o prescritivismo é coisa do passado. Se por um lado é verdade que o trabalho desenvolvido na área da linguística deixou de se desenvolver completamente com base em obras literárias, também é verdade que a análise de uma entidade abstracta como o Português Europeu Padrão, que muitas vezes não tem um reflexo real nas falantes e é maioritariamente constituído por idealizações do conhecimento linguístico destas, acaba por criar novas normativizações ainda mais difíceis de combater uma vez que existem de forma mais subreptícia.

É claro que como amante da linguística, especialmente experimental, sei que o âmbito do trabalho das ciências da linguagem não passa maioritariamente pela influência da língua no pensamento, mas pela descrição dos mecanismos formais pelos quais ela funciona. No entanto, é de notar a condescendência da maioria das linguistas quanto à construção de teorias políticas em volta da linguagem e da sua subversão. Esta condescendência tem resultados práticos muito negativos. Entre eles, faz com que as pessoas mais especializadas no conhecimento da linguagem boicotem qualquer tentativa de desconstrução dos dogmas sociais através dela. Isto é quase um crime ideológico.

Que me importa que as teorias linguísticas vigentes hoje em dia me digam que a língua não é machista, se a percepção da comunidade linguística é a de que a língua é machista? O que me interessa que a morfologia contemporânea defenda que o masculino universal do plural não tem um real valor de masculino, se todas nós sentimos esse valor no dia-a-dia?

Compreendo também que a abolição de uma norma, de um orthos, para a criação de uma nova norma não passa de uma solução temporária e precária. É como erguer um fascismo linguístico, tentar que as pessoas deixem de falar como falam para falar como eu quero. Obviamente que isto não é possível. No entanto, nunca foi isso que eu idealizei porque a língua nunca será completamente normativizável, a língua é livre, é o instrumento democrático por excelência. A Mulher enquanto espécie tem a capacidade da linguagem e não pode privar nenhuma classe social deste dom. Neste aspecto, de facto, todas as mulheres nascem iguais.

Dito isto, subscrevo o Acordo Queerográfico porque me dá a oportunidade de, enquanto falante da língua portuguesa, tomar a língua para mim. Dá-me a oportunidade de desconstruir os dogmas sociais que as formas institucionalizadas de linguagem permitem propagar, sem erguer um fascismo linguístico. Não tenho medo de mudar a língua, porque a língua é minha. É de todas nós. Português não é a língua de Camões. Eu não falo a língua de Camões. Camões falou a minha língua. E por isso reclamo o direito de a mudar, descontruir e desnormativizar contra as comunidades académicas em geral! Tenho o direito de me apropriar do que me pertence, tenho o direito e o dever ético de mudar pensamentos que são o resultado de dogmas ancestrais para que todas as falantes do português ou de qualquer outra língua do mundo se vejam reflectidas na sua gramática. Não admitirei nunca mais ser acusado de usar uma falácia ad hominem quando me dirigir a uma mulher! Não admitirei nunca mais que me digam que depois de milhares de anos de evolução chegámos a ser a espécie Homo sapiens da qual todas as mulheres, todxs os trans e todas as identidades não masculinas que algum dia existiram ou existirão na espécie humana sejam excluídas. Vou tomar a minha língua para não permitir que uma mãe e um pai se tornem em dois pais. Ou que duas mães que criam uma filha não tenham uma palavra que as descreva, já que não há um pai para contribuir para o masculino universal. Usarei a única arma que sei usar para destruir os dogmas da família tradicional mono e heteronormativa. Não quero um pai e uma mãe. Quero que haja muitos pais e mães por criança. Quero liberdade e uma sociedade de diferença, quero que as linguistas deixem de pôr o seu trabalho científico como um entrave às mudanças de mentalidade para que a língua pode contribuir. Não permitirei que me digam como usar a minha própria língua. Não permitirei que uma maioria opressora continue a tirar a visibilidade das mulheres! Não permitirei que uma língua que adoro contribua para a propagação de ideais binaristas de género. Usarei plurais femininos para que se veja a injustiça de excluir tantas identidades de um grupo. Defraudarei as expectativas da sociedade que me impôs que sou um homem falando de mim no feminino. Estimularei a dissonância cognitiva, transformarei o contraste dos géneros no meio para a sua própria destruição. Retiro a língua a Camões, retiro a língua à Academia. Aproprio-me da minha gramática, crio um conhecimento explícito que substitua o meu conhecimento implícito. Não passo lápis azul na língua de ninguém, mas exijo que não passem na minha. Exijo que percam os dogmas normativizadores que excluem a possibilidade de um acordo ortográfico, de um acordo queerográfico. A língua não é um monólito, a língua é viva e pode espelhar; além de regras sintácticas, lexicais, semânticas, prosódicas; as preocupações profundas dos povos do mundo, as opressões sentidas pelas minorias de todas as sociedades. A língua pode ser a nossa arma mais poderosa para a desconstrução de tudo o que tomamos por garantido, o primeiro passo para a abolição do binarismo de género, da família tradicional como paradigma social por excelência, da sociedade da norma que não dá lugar à diferença.

Peço por isto a todas as linguistas que se lembrem que o facto de a linguística se centrar no estudo da estrutura da língua, não quer dizer que a língua não tenha outras realidades mais abrangentes. Peço que se lembrem que muitas delas são também afectadas pelos dogmas propagados diariamente pela língua. Peço que se lembrem que o seu amor pela língua não lhes deveria permitir ficar inertes quando esta é um meio de propagação de injustiças. Não pretendo com este texto ofender ninguém, pretendo que todas se lembrem de que há lugar no mundo para mais do que o estudo da estrutura das línguas. Há lugar para a mudança, para o boicote, para a apropriação da língua pelos falantes.

Sou linguista. Amo a linguagem humana mais do que a maioria das pessoas poderia compreender. Amo-a com fervor, com paixão. Amo-a de uma forma quase erótica. E por isso mesmo dou-lhe a mão e caminho com ela em direcção à destruição do patriarcado.

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3 thoughts on “O AQ e a Linguística, Simão Cortês

  1. De facto, há lugar no mundo para muito mais que o estudo das estruturas das línguas (coisa de que a própria linguística generativa, especialmente no âmbito do programa minimalista, se está lentamente a afastar). Os linguistas sabem disso, e por isso sabem que movimentos como o “Acordo Queerográfico” fogem do âmbito da sua área de ação, e também por isso não têm nada a dizer sobre este acordo enquanto linguistas. Além disso, a constante alusão a ideias e hipóteses sem nenhum tipo de contextualização ou até fundamento tornam a retórica ainda mais repelente para o linguista profissional. Tudo se torna pior quando algumas das ideais em causa foram já claramente refutadas experimental e/ou teoricamente ou para as quais simplesmente não há provas (como é o caso da hipótese de Sapir-Whorf, a que é feita uma alusão neste texto e também no artigo da wikipédia). Ah, e a confusão entre “linguagem” e “língua” é desconcertante (são termos técnicos distintos e, como tal, têm significados bastante diferentes)

    Claro que nada disto põe em causa o quão louvável é o ativismo pela igualdade (apesar de os mesmos argumentos poderem ser levantados–e até com mais força, já que este “acordo” é intencional e não fruto do acaso–a um movimento cujas diretrizes ou sugestões incluam usar o género feminino para o plural.)

    1. ptm, estou mesmo contente que tenhas feito esta resposta porque apesar de discordar da maioria dos pontos que abordas, é a primeira resposta que vejo a algum texto do AQ em que se nota que a pessoa tentou perceber aquilo que estava a criticar. Também por isso me parece que vai ser fácil que percebas os meus contra-argumentos e que mesmo que não concordemos reconheçamos legitimidade no que é dito.
      Vou dividir a minha resposta em vários parágrafos relacionados com as várias críticas. Vou dar o meu melhor para responder de forma clara, despretenciosa e dialéctica.
      Em primeiro lugar queria deixar claro que não me parece que tenha havido qualquer confusão ou má utilização dos termos língua e linguagem no meu texto (voltei a lê-lo para confirmar). “Linguagem” é utilizado em contextos em que me refiro à capacidade humana da linguagem, e à entidade abstracta que é a linguagem humana (eu sei que os termos técnicos em linguística variam muito de autor para autor, mas acho que é justificável que se use linguagem aqui, termo bastante consagrado em expressões como “aquisição da linguagem”, “processamento online de linguagem” “universalidade da linguagem”). Quando Pinker diz que a “linguagem” é uma janela para a natureza humana, está na verdade a falar dos universais linguísticos, da linguagem de uma forma abstracta e não de línguas em concreto. Quanto ao termo língua uso-o em dois contextos. No contexto 1 uso-o como as entidades específicas que são as várias línguas conhecidas (português, tupi, tétum, hebraico) e no segundo contexto utilizo-o como representação mental de regras que estão por trás do conhecimento interiorizado de um falante (e.g. “A descoberta de que a língua…”- reconheço que neste caso poderia ter usado linguagem para que fosse mais claro, mas ainda assim parece-me haver uma diferença bastante evidente).
      Quanto à crítica da utilização de ideias refutadas/para as quais não há provas/ou que não cabem nos enquadramentos teóricos da maioria da linguística contemporânea aceito-a, mas devolvo-a. Em primeiro lugar, as “modas” em ciência tendem a mudar radicalmente em poucas décadas. Se é verdade que desde os anos cinquenta que vemos uma linguística dominada pelo nativismo, também é verdade que antes dos anos 50 esse nativismo tinha sido “desmentido”. O repegar e a transformação de antigas ideias em ciência sempre aconteceu, e sempre acontecerá. O facto de uma ideia ser posta de lado porque questões teóricas ou mesmo experimentais não quer dizer que ela deva ser deitada fora para todo o sempre. O heliocentrismo é um caso ilustrativo disto. A hipótese de Sapir-Whorf foi posta de lado com a entrada na moda da linguística cognitiva, das ideias nativistas e com a procura da gramática universal. No entanto, o facto de muito do trabalho experimental pôr cada vez mais em causa a maioria destes princípios (desde os mais Chomskyanos até outros aspectos, o trabalho experimental tem demonstrado que a maioria das assunções sobre universais linguísticos até agora estavam erradas). Penso que, felizmente, a linguística experimental e alguma psicologia experimental estão a voltar-se mais para o behaviourismo (é claro que o meu felizmente aqui tem montes de bias, mas também tenho direito) e a hipótese de Sapir-Whorf pode ser um princípio interessante para testar, reconstruir, elaborar.
      Isto para basicamente criar dos pontos: 1- Se bem que eu fiz alguns “saltos de fé” arriscados aos trazer relativismo linguístico e teorias behaviouristas à baila, também acho que todo o frenesim com a universalidade da gramática se deveu a “saltos de fé” enormes que raramente ou nunca foram confirmados por trabalho experimental. Desse ponto de vista, não acho que a minha hipótese tenha muito menos valor que a Chomskyana (a sério, a linguística imensas vezes parece uma ciência mais theory-driven do que data-driven o que é uma pena).
      2- A ciência muda, não é um monólito, e há algum trabalho experimental que me parece poder vir a apontar para algumas coisas que podem estar mais ou menos de acordo com a hipótese de Sapir-Whorf. Há montes de trabalho experimental a ser desenvolvido pela Dra. Jesse Snedeker e pela Dra. Susan Carey que se baseia na pergunta base “uma criança pode criar um conceito sem lhe associar um signo linguístico?”. Se a resposta experimental for não, então lamento mas teremos abertos montes de caminhos para trabalhar com a hipótese de Sapir-Whorf.
      Eu não sei se concordo a 100% se linguistas, enquanto pessoas que se dedicam à língua, não devessem ter opinião sobre isto. Mas mesmo que não tenham, o que se compreende, parece-me muito pior que critiquem sem compreender sequer o argumento que está a ser usado. Por exemplo, a crítica que tanto se ouve de “não há provas empíricas para que o género gramatical tenha origens culturais” quando eu explico no meu texto que não acredito que o género gramatical tenha origens culturais é puramente frustrante. O objectivo é a criação de dissonâncias cognitivas, pensamento crítico, e discussão pública (escrever este comentário está a deixar-me tão feliz).
      Só para terminar, como o objectivo do AQ nunca foi ser institucionalizado, acho que a última crítica do comentário é um pouco ingénua. Os homens são uma maioria social, não é por meia dúzia de pessoas usarem o plural feminino que vão começar a ser discriminados. Aliás, visto que o objectivo do AQ não é criar uma regra nova, um orthos, seria interessante usar plural masculino em alguns contextos. Por exemplo, se um grupo de raparigas for a uma manicura, acho que seria muito interessante que se referissem a si mesmas no plural masculino para desconstruirem uma ideia de género associada a pintar as unhas. A ideia do AQ não é ser fixo, é realmente pensar novos pensamentos.

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