AQ na Time Out

Já ouviu falar do Acordo Queerográfico?

Reportagem, Gay

Eles dizem que escrever “a rapaz” não é um erro ortográfico, mas uma forma inclusiva de utilizar a língua portuguesa. São activistas LGBT e querem “estimular o debate”. Bruno Horta explica-lhe a ideia. A ilustração é de José Carlos Fernandes.
Quando um político se dirige a uma plateia e fala em “portugueses e portuguesas” o que ele está a fazer é… política. A língua tem ideologia, como se sabe. E as minorias sexuais sabem-no ainda melhor.
Basta pensar nas palavras que ao longo da história, através de leis, teorias ou dicionários, têm sido utilizados para falar de homossexualidade ou transexualidade. Com isto em mente, um grupo de activistas LGBT decidiu repensar a forma como se fala e escreve.
Os linguistas não dão importância ao assunto, mas os activistas dizem que há marcas machistas e homofóbicas que é preciso eliminar do português. Lançaram, por isso, o Acordo Queerográfico, um manifesto que propõe a alteração da ortografia actual (que ninguém sabe muito bem qual seja, já que a aplicação e entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 não são unânimes).
“O título do manifesto é uma brincadeira com a ideia de Acordo Ortográfico, que tanta tinta faz correr”, explica Simão Cortês, um dos subscritores do Acordo Queerográfico. “Pegámos no prefixo ‘orto’, que significa norma, e substituímo-lo por ‘queer’, que remete para a abolição das normas. Queremos estimular o debate público”, anuncia.
O texto do manifesto encontra-se no blogue acordoqueerogra fico. wordpress.com e vem subscrito por nomes conhecidos do activismo LGBT, pessoas próximas do Bloco de Esquerda e estudantes da Faculdade de Letras. Diz-se que são de aceitar formulações como presidenta, alunxs (o ‘x’ para substituir o plural masculino), velh@s, tod*s, a rapaz.
Parece estranho? Faz pelo menos lembrar que em 2012 os dicionários suecos passaram a dar como bom o pronome pessoal neutro “hen”, em lugar de “han” (ele) e “hon” (ela). E lembra ainda a resolução publicada no Diário da República de 3 de Abril último, segundo a qual a Assembleia da República recomenda ao Governo e às entidades públicas e privadas que substituam a expressão “direitos do Homem” por “direitos humanos”, seja para titulares de “funções públicas de qualquer natureza e independentemente da natureza do vínculo”, seja na “produção de documentos oficiais” ou na “produção de manuais escolares”.
Simão Cortês, de 19 anos, estudante do segundo ano de Ciências da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa, explica que a ideia do Acordo Queerográfico nasceu no Facebook, através de um grupo de discussão que reúne amigos e conhecidos. “Fizemos duas reuniões e discutimos muito através da internet”, conta. “Em várias partes do mundo há propostas para alteração da linguagem no sentido de a tornar mais inclusiva, mas nestes termos acho que somos pioneiros”, acrescenta.
Se há activistas LGBT que procuram influenciar o poder político para provocar alterações legislativas e sociais, estes outros preferem actuar no campo das normas linguísticas – teoricamente, uma forma de chegarem à maneira como se pensa.
“Claro que se trata de uma proposta radical, mas só assim se consegue uma declaração ideológica eficaz” , sustenta Simão Cortês. “A linguagem sexista ou homofóbica tem grande influência sobre o nosso pensamento”, concluiu.
A Time Out pediu opinião ao linguista João Costa, professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “Não me parece que tenha qualquer coisa de interessante a dizer sobre isto”, afirma o linguista. “O género é uma classe gramatical, não se confunde com sexo.”
Anabela Gonçalves, professora na Faculdade de Letras e investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL) entende que o assunto “não tem relevância” e sublinha que o CLUL, “ao contrário do que algumas pessoas pensam, não subscreve o manifesto”.

http://timeout.sapo.pt/artigo.aspx?id=4599

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